Reflexões… :: Entre lobos

3 de Dezembro, 2017
Como um hipopótamo lida com um campo de flores.
T.E.A.

Ontem finalmente recebi o resultado de uma avaliação que estou fazendo há algumas sessões: aos 42 anos recebo o diagnóstico de autismo. Na verdade dupla-excepcionalidade: Transtorno do Espectro Autista e Altas Habilidades.

O autismo não foi nenhuma surpresa, já tinha o prognóstico e não tinha dúvidas. Achei que chegaria em casa e continuaria meu dia-a-dia, no máximo escreveria uma publicação neste blog falando sobre o assunto.

Não foi assim.

Por um lado foi um alívio: um monte de coisas na minha vida que não se encaixavam passaram a fazer sentido. Todo o bullying que sofri na escola e no trabalho (e ainda sofro) passou a fazer sentido. As pessoas não aceitam o diferente, perseguindo e atacando sem trégua. Pretendo escrever uma publicação específica sobre isso.

Meu Transtorno de Ansiedade – e os consequentes TOC e TOD – são resultado de viver sob esses constantes ataques, conviver com protocolos sociais que não sou capaz de entender, não fazem sentido pra mim, como se eu vivesse entre lobos.

Chorei. Chorei e precisei de uma noite de sono para digerir. Chorei de alívio, mas não somente. Também por uma tremenda frustração em perceber uma realidade nefasta e inevitável.

Uma parte dessa realidade provém das AH/SD: eu não esperava esse diagnóstico e não fazia ideia do quão alto era meu QI. Isso significa que eu me sentir rodeado por pessoas “burras” não é simplesmente por eu perceber o mundo de forma qualitativamente diferente, mas porque, mesmo as pessoas não sendo burras de fato, do meu ponto de vista são. E sempre serão.

Entenda: cada um é a referência para si mesmo. Sendo eu referência de cognição para mim mesmo, eu não me percebo alto habilidoso, mas mediano.

Em relação a minha referência de inteligência, seria como viver em uma sociedade onde a grande maioria das pessoas tivesse capacidade cognitiva média equivalente ao QI 69. Soa arrogante? Não é a intenção. Pra mim na verdade é assustador.

Mas isso não é o pior.

O pior vem da percepção que os neurotípicos têm dos neurodiversos e o consequente preconceito.

Sempre senti que não sou respeitado, recorrentemente as pessoas me tratam como criança, desrespeitando minha idade, minha experiência, minha maturidade. Por exemplo: ao ler minha avaliação para minha esposa, minha psicóloga comentou:

— É como ter outra criança em casa? É…

Porra, não é. O problema é que, para o neurotípico, a referência de maturidade, de “ser adulto”, é a neurotipicidade. Portanto, desse ponto de vista, um neurodiverso jamais será adulto.

Assim, um neurotípico imaturo, incapaz de lidar com frustrações, é considerado mais adulto do que qualquer neurodiverso jamais será, o que é uma injustiça.

Uma injustiça que estou condenado a sofrer por toda minha vida – não por culpa da neurodiversidade, do autismo, mas por culpa do preconceito e da incompreensão dos neurotípicos – e dos neurodiversos que se acham neurotípicos.

Foi essa sentença – de viver numa sociedade de lobos, a perspectiva de nunca ser respeitado como igual, nunca ser compreendido – que me fez desabar.

Não tenho qualquer rancor do autismo, da neurodiversidade, sinto-me bem reconhecendo-me autista, mas meu rancor pelo preconceito e incompetência cognitiva da sociedade só piora.

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