Reflexões… :: Modos gregos na guitarra

10 de Fevereiro, 2017
Como um hipopótamo lida com um campo de flores.
Schecter C-8 Deluxe

Complementando o artigo sobre modos gregos, este foca em sua execução em violão e guitarra.

Comentei no Facebook que escreveria um artigo que deveria tirar o trabalho de pseudo-professores. É este aqui.

O motivo disso é que muitos professores de guitarra (não de música) continuam ensinando os modos gregos com desenhos (shapes) diferentes, como se fossem escalas diferentes, apesar de já admitirem que se tratam de modos da mesma escala diatônica. Pretendo aqui demonstrar por que são modos da mesma escala e não escalas diferentes.

Observação: os desenhos de braço de guitarra neste artigo são todos baseados na afinação padrão para violão de seis cordas, que é E2 A2 D3 G3 B3 E4.

Escola árabe: tetracordes e modo jônico

Para facilitar a demonstração, vamos nos concentrar na visão árabe sobre a escala diatônica.

Ao contrário dos gregos, que enxergam a escala como um todo, a escola árabe vê a escala diatônica como uma sobreposição de duas metades, cada uma composta por quatro graus e, por isso, chamadas tetracordes.

A escala Maqam Rast, equivalente direta do modo jônico da escala diatônica, é entendida como dois tetracordes maiores, formados por tom-tom-semitom, sobrepostos, separados por um tom.

Assim, o primeiro tetracorde é dó, ré, mi, fá:

c d e f

Para o segundo tetracorde, basta escorregar o dedo duas casa para cima e repetir o mesmo desenho, obtendo sol, lá, si, dó:

g a b c

Se repetirmos esse desenho – lembrando que a última nota do segundo tetracorde já a primeira nota da próxima execução do primeiro – teremos sempre mais uma oitava da escala diatônica:

c d e f g a b c

Mudando a tonalidade

Uma das coisas bacanas dos instrumentos de corda é ser possível mudar o tom sem mudar o desenho do movimento das mãos, apenas alterando a região do braço do instrumento onde o desenho é executado.

Por exemplo, execute o mesmo desenho duas casas abaixo e terá a mesma escala em si bemol maior:

bes c d ees f g a bes

Mas voltemos ao dó maior jônico, pois servirá de referência para os demais modos.

Modo dórico

O modo dórico pode ser entendido como a escala diatônica executada usando o segundo grau do modo jônico como descanso.

Ou seja: o ré menor dórico é exatamente igual ao dó maior jônico, apenas usando o ré como descanso. Isso significa que podemos fazer exatamente o mesmo desenho:

d e f g a b c d

Para usar outro tom, basta executar o mesmo desenho em outra região do braço. Dó menor dórico, por exemplo, é exatamente igual ao si bemol maior jônico, apenas usando o dó como grau de descanso.

Modo frígio

O modo frígio é a escala diatônica executada usando o terceito grau do modo jônico como descanso.

Isso significa que mi menor frígio é indêntico ao dó maior jônico, usando o mi como nota de descanso.

e f g a b c d e

As mesmas regras citadas acima valem aqui, como para todos os modos.

Modo lídio

O modo lídio usa o quarto grau do modo jônico como descanso, ou seja, a escala fá maior lídia é idêntica ao dó maior jônico, usando o fá como descanso:

f g a b c d e f

Repare que até agora – e para os demais modos – estamos usando exatamente o mesmo desenho, apenas mudando o grau de descanso.

Modo mixolídio

O modo mixolídio, famoso por sua sétima da dominante, é exatamente o modo jônico, mas usando seu quinto grau como descanso – ou, no linguajar técnico, modulada pela dominante.

Assim o sol maior mixolídio equivale ao dó jônico:

g a b c d e f g

Modo eólico

Um dos mais belos modos gregos é o relativo menor, chamado modo eólico, que nada mais é que a diatônica modulada pela relativa, ou seja, pelo sexto grau em relação ao modo jônico.

Então o lá menor eólico equivale ao dó maior jônico:

a b c d e f g a

Modo lócrio

Por último temos o modo artificial lócrio, que consiste na diatônica modulada pelo sétimo grau em relação ao modo jônico.

Isso significa que o si menor lócrio (ou si diminuto lócrio para alguns) consiste no dó jônico usando o si como nota de descanso:

b c d e f g a b

Conclusão

O desenho usado aqui foi apenas ilustrativo, por ser o mais simples de ser estendido, tanto para os agudos quanto para os graves, mas qualquer outro desenho pode ser usado. Conhecendo a posição das notas da escala diatônica ao longo de todo o braço do violão ou guitarra, é possível imediatemente executar todos os modos gregos, sem a necessidade de reaprender a mesma escala pra cada um dos sete modos.

Bônus: escala superlócria

A escola superlócria é uma escala exótica, ou seja, sem equivalente na diatônica por simples modulação, mas ainda assim fortemente aparentada do modo jônico.

A escala superlócria equivale ao modo jônio aumentando sua tônica em meio tom.

Ou seja, a escala superlócria em dó sustenido menor é muito parecida com o dó maior jônico, apenas alterando seu grau principal:

cis d e f g a b cis