Reflexões… :: Algumas palavras sobre aborto

2 de Dezembro, 2016
Como um hipopótamo lida com um campo de flores.

Aborto é uma questão extremamente polêmica, dividindo o mundo entre mocinhos e bandidos. De um lado há os vilões, abortistas, comedores de criancinhas; de outro há os mocinhos, defensores da vida, heróis salvadores das donzelas em perigo crianças por nascer – ou pelo menos assim acham esses que sofrem de preguiça mental.

Vamos falar algumas palavra sobre o aborto.

Por que legalizar o aborto

Sou absolutamente contra a criminalização do aborto, o que não significa que eu seja a favor do aborto. É preciso um pouco de raciocínio e inteligência para entender isso e ficar na zona de conforto de ideias rasas e fáceis só vai atrapalhar.

Então se você está determinado a não entender, pode parar de ler aqui e vá procurar alguma coisa mais útil pra fazer da vida, como desenhar unicórnios, jogar LoL, ou contar estrelas.

Estou sendo arrogante? Sim, mas com propósito e propriedade. Não adianta argumentar com quem já formou opinião prévia (= preconceito).

Voltando à legalização do aborto, o problema que temos hoje é o seguinte:

As mulheres vão continuar abortando, legal ou ilegalmente. A diferença é que mulheres de classes sociais com mais acesso farão abortos seguros, ainda que ilegais, enquanto as mulheres de classes sociais menos favorecidas vão passar nas mãos de açougueiros, colocando sua vida e saúde em risco.

Considerando os casos em que a mãe não conseguirá fazer o aborto e a gravidez chegar a seu clímax: em muitos casos a vida da mãe é simplesmente interrompida, pois terá de largar estudo, carreira, o que for para cuidar de uma criança indesejada.

Mas tudo bem, né? Quem pariu Mateus que o embale… – mas que argumento mais misógino! E o pai? A mulher quem engravida, ela que se cuide, o homem só estava indo ao banheiro?!

Aí dizem que o pai tem de ser responsabilizado. Vão colocar a mulher pra viver com seu estuprador?

Mas há casos que não são de estupro… aí responsabilidade do pai é só pagar pensão, a mãe que se vire de criar? Se não, vão forçar o cara a casar contra sua vontade, como se faz no interior?

Então acontece é como casais que conheço, onde o homem, sentido-se podado, destrata a esposa o dia inteiro, que chora, torturada psicológica e moralmente todo dia. Misoginia.

Vamos falar da criança:

Você coloca no mundo uma criança não amada, deformada e/ou indesejada, algum(ns) desses casos, pra ser abandonada pela mesma sociedade que se diz pró-vida, mas que só se preocupa com o ser humano até ele nascer, depois é trombadinha, bandido-bom-é-bandido-morto, diminuição da maioridade penal, bolsa-esmola…

Ou seja: querem que a lei dê suporte à vida até que o feto nasça, depois é cada um por si e faça-se a meritocracia.

Além do mais, o corpo da mulher é propriedade dela própria e ninguém tem direito de legislar sobre o corpo do outro, muito menos um bando de homens numa sociedade patriarcal.

Incoerências do Espiritismo

Vou falar do Espiritismo aqui porque fui criado numa família mista de Espiritismo e Umbanda, e vejo muita hipocrisia no meio espírita, mas muito da lógica aqui se aplica à grande maioria das igrejas cristãs.

Segundo o Espiritismo, o ser pré-existe à concepção, portanto o aborto em qualquer etapa da gestão é um assassinato. Também se fala das consequências para aquele espírito na interrupção do processo.

Porém o Espiritismo também fala em pré-determinação e planos de reencarnação, deixando claro que os planos de Deus são ininterruptíveis.

Vejam a contradição lógica: o que está planejado para cada um acontecerá como uma consequência inevitável dos fatos do passado, no entanto não podemos interromper a gestão para não evitar o inevitável! (??)

É como o paradoxo da onipotência divina.

Se a vida pré-existe à concepção e sobrevive à morte biológica, e os planos divinos são inevitáveis, a interrupção da gestão e a consequente falha na tentativa de levar a cabo aquela existência são parte dos planos inevitáveis. Após passada essa provação, aquela alma terá oportunidade de nova encarnação após se recuperar do trauma.

Não pretendo justificar o aborto, apenas estou demonstrando que o argumento religioso não procede.

Como combater o aborto?

Dito tudo isso, vem a parte importante: como evitar o aborto?

A primeira parte são políticas sociais de conscientização contraceptiva. Educação e prevenção são as melhores armas contra o aborto – não a criminalização da mulher.

A única causa de abortos é a gravidez indesejada e a principal causa de gravidez indesejada é a carência de uma cultura de prevenção. Educação sexual nas escolas, grupos de apoio e conscientização são apenas algumas abordagens – curiosamente ações que criminalizadores do aborto são contra.

Outra causa de gravidez indesejada é o estupro. A mulher precisa ter a segurança de andar na rua sem medo, pra isso precisamos de políticas de segurança mais fortes e menos machistas.

Precisamos eliminar essa cultura de culpar a vítima e tratar o homem como coitadinho. Agrediu a mulher física, moral ou emocionalmente? Tem de responder criminalmente por isso. Acabar com essa história babaca e hipócrita de delegado, promotor e juíz sugerindo que a vítima estava pedindo pra ser estuprada ou agredida.

Agora, próxima etapa: a gravidez indesejada ocorreu. E agora?

Precisamos de políticas de apoio à gestante para tentar desenconrajá-la da ideia do aborto. Vejam que isso deve ser feito por meio de conscientização, nunca intimidação.

Caso a mãe não queira criar o filho, a adoção precisa ser incentivada e facilitada. Hoje há muita burocracia, é preciso limpar isso.

Em último caso, se nada mais consiga dissuadir a gestante do aborto, o procedimento deve ser o mais seguro e humano possível – não apenas para as filhinhas de papai rico, com uma esplendorosa carreira pela frente.

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Finalmente, parem de querer legislar na vida alheia! Fica muito bonitinho nas redes sociais defender fetos, gatinhos, cachorrinhos, coelhinhos, etc., mas a empatia de sentir a dor do outro está em falta justamente em vocês que se acham o exército do bem no mundo.

O mundo não é preto no branco, bem e mal. As nuances da realidade são muito mais profundas que uma mente rasa consegue alcançar.

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