Reflexões… :: Estabanado

24 de Setembro, 2018
Um hipopótamo num campo de flores.
Iwa

Sempre fui “estabanado”. Nunca me dei bem em esporte algum, por mais que praticasse. No entanto isso não tem a ver com vontade ou displicência: autistas têm os sentidos “descalibrados”.

Eu tenho hiporresponsividade proprioceptiva. Isso significa que os sinais sensoriais sobre onde estão as partes de meu corpo são insuficientes.

Se eu ficar parado, sem me mover, em algum tempo perco totalmente a noção de onde minhas mão, braços e pernas estão: algumas partes parecem que desaparecem, dissovem-se, enquanto outras parecem torcidas em posições impossíveis totalmente diferentes de onde estão de verdade.

Isso, combinado a minha hiporresponsividade vestibular me torna um total pato, a ponto de praticar caratê por mais de cinco anos, amar o caratê e ser um dos alunos mais dedicados, e mesmo assim ver todos os outros alunos evoluindo enquanto eu não passava da faixa laranja. O resultado é frustração e abandono da prática.

Meus pais me forçavam a frequentar uma escola de futebol – eu odiava. Não conseguia nem correr com a bola.

Toco diversos instrumentos desde que tinha idade para conseguir segurá-los, e mesmo com toda prática e exercício nunca consegui tocar bem nenhum, meu conhecimento musical é praticamente só teórico.

Por causa disso minha adolescência foi sofrida: ninguém quer ser visto andando com um pato; eu era sempre o último a ser escolhido para o time, aquele que sobrava; as “brincadeiras” contra mim chegavam a níveis de extrema crueldade (repetidas boladas no saco, rasteiras, ser empurrado pra cair de costas no cascalho). Preconceito e discriminação são a resposta dos neurotípicos.

Minha preocupação hoje é o que eu posso fazer para que isso não aconteça com meu filho. Ainda não sei quais divergências sensoriais serão mais graves nele, nem como isso o afetará física e socialmente. Como fazê-lo entender que ele tem diferenças, que ele precisa conhecê-las e que elas não devem limitar suas escolhas?

Vejamos como e quais serão os próximos desafios.


1 Originalmente a palavra usada era hipossensibilidade, mas alguns médicos começaram a cogitar a posibilidade dos sentidos na verdade estarem intactos, apenas a resposta do cérebro ser descalibrada. Então passaram a usar a palavra hiporresponsividade, que vale para os dois casos (sentido descalibrado ou resposta neurológica descalibrada). O mesmo vale para hiperresponsividade.

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