Reflexões… :: Espiritismo e aborto

18 de Agosto, 2018
Um hipopótamo num campo de flores.
Allan Kardec

Entre os maiores opositores da legalização do aborto estão os espíritas, mas seus argumentos estão saturados de contradições.

O argumento espírita contra a legalização do aborto é que, segundo o Livro dos Espíritos, o espírito a encarnar se liga ao feto logo na concepção. Este argumento contradiz o próprio Espiritismo em dois pontos.

Quando o Espiritismo é a resposta

Segundo Allan Kardec, o Espiritismo só pode ser buscado como resposta quando se esgotam todos os argumentos de ordem científica ou social.

No caso do aborto, há considerações a serem feitas muito antes de apelarmos para respostas fantásticas, a começar com as consequências sociais e de saúde pública.

Do ponto de vista da saúde pública, as mulheres que pretendem abortar vão abortar, mesmo que seja proibido. Portanto a proibição apenas criminaliza essas pessoas, sem melhorar em nada a situação. Isso significa que apelar para o argumento espírita desconsiderando a saúde pública não passa de fanatismo religioso, coisa que o Espiritismo se diz contra.

Do ponto de vista social, a legalização do aborto permite sua fiscalização e intervenção psicológica, permitindo que as grávidas possam ser dissuadidas da ideia sem intimidação. Isso significa que o argumento espírita desconsiderando as consequências sociais presta um desserviço que impede a intervenção respeitosa e saudável.

Evolução do feto

Se ainda assim o espírita for fanático demais, desconsiderando todos os argumentos, precisaremos apelar para o ataque, demonstrando que o próprio Espiritismo se desmente.

É conhecimento biológico moderno que o feto passa literalmente por todas as etapas evolutivas que a própria espécie sofreu.

Então o feto inicia como um feto pisciano, passa a um feto reptiliano, para finalmente se transformar em um feto mamífero, que se desenvolve para um nasciturno.

Para que o espírito possa se ligar ao feto na concepção, é preciso que ele possa ligar-se a corpos de outras espécies, o que é chamado metempsicose.

Bem, segundo o Espiritismo, a metempsicose é impossível, contradizendo a própria afirmação.

Divaldo Franco afirma que o diferencial do Espiritismo enquanto religião é que ele não tem compromisso com o erro: assim que a ciência prova algo que contradiga alguma crença do Espiritismo, o Espiritismo se adapta e se corrige de acordo com a nova informação.

Porém na prática isso só acontece quando é conveniente. Quando os espíritas estão muito apegados a uma crença (principalmente aquelas de origem nas obras básicas), se a ciência a contradiz, eles simplesmente ignoram – como é o caso da ligação entre espírito e feto. Ou não acontece na concepção, ou a metempsicose é possível.

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