Reflexões… :: Autoridade

26 de Outubro, 2017
Como um hipopótamo lida com um campo de flores.
Manes

Nossa cultura patriarcal nos ensina a respeitar incondicionalmente a autoridade. No entanto isso faz sentido?

Autoridade é uma extrapolação do conceito familiar de respeito das crianças pelos pais: os filhos devem respeito à autoridade dos pais até que sejam capazes de tomar suas próprias decisões.

O problema é que esse conceito é distorcido para “até que tomem as mesmas decisões que os pais”, ou seja: todo mundo passa necessitar de monitoramento dos pais por toda a vida, uma vez que jamais serão os próprios pais.

Isso gera uma condição de eterna subordinação que acaba extrapolada para o contexto social.

São criadas então hierquias de autoridade para que as pessoas sejam vigiadas e jamais tenham espaço para pensar por si mesmas.

Portanto toda autoridade deve ser confrontada, questionada e desrespeitada, com a única exceção da autoridade dos pais sobre crianças que ainda não sejam capazes de tomar as próprias decisões.

Isso não implica nesse desrespeito pelo conhecimento crescente na Web, em especial no Facebook.

Há uma confusão semântica aqui: quando se fala em “autoridade de conhecimento”, o termo correto seria propriedade de conhecimento.

Há uma distância entre quem leu sobre um assunto e quem passou tempo imerso naquele assunto, experienciando suas peculiaridades e detalhes. Há uma diferença entre quem leu um livro e quem tem toda uma bagagem que lhe dê propriedade para questionar o conteúdo desse livro.

Não ter entendido a Teoria da Relatividade não há a ninguém (nem mesmo ao astrólogo Olavo de Carvalho) “autoridade” para questioná-la – pelo contrário.

Voltando à autoridade (não propriedade intelectual), há pouco mais de um ano durante uma mudança, a zeladora disse que eu não poderia passar com a mudança pela portaria.

Eu respondi que, assim sendo, poderíamos parar o caminhão de mudança atrás do prédio, na saída de serviço. Ela disse que não, que minha equipe de mudança deveria parar o caminhão na frente da portaria, sair por trás, pela saída de serviço e dar a volta pelo prédio carregando peso para então embarcar a mudança no caminhão na frente da portaria.

Respondi que não iria obrigar minha equipe de mudança a andar toda essa distância desnecessariamente carregando peso, que continaríamos passando pela portaria, e pedi para ela chamar a síndica.

Mas eu disse isso de boa, pois ela não tem culpa das ordens que recebe.

Além dela não ter chamado a síndica, parou de falar comigo e esperou a gente ir embora pra só então chamar a síndica e dizer que eu desrespeitei a “autoridade” dela.

Estamos tão condicionados a obedecer ordens que, quando alguém questiona a autoridade, tomamos esse “desrespeito” como ofensa pessoal.

E esse vício mental nos impede de questionar. Questionar é o único meio de nos tornarmos seres pensantes, ou seja, sem questionar somos apenas autômatos irracionais.

Por isso é tão importante enfrentar toda forma de autoridade – salvo os casos citados acima por motivos compreensíveis.

Educação e Cultura | Pessoal