Reflexões… :: Escalas exóticas (versão em dó)

24 de Junho, 2016
Como um hipopótamo lida com um campo de flores.
𝄞

No último artigo falei sobre escalas exóticas, dando continuidade ao artigo sobre modos gregos. Algo no entanto pode ter causado estranheza: apresentei todas as escalas a partir de fá.

Tive um motivo muito simples para isso: ao escrever os modos gregos, a sequência crescente de acidentes bemóis fica evidente.

Porém essa abordagem não é totalmente correta se levarmos em conta que os os nomes das notas musicais não são em sua origem absolutos. Apenas em português os nomes das notas são usados para referenciar frequências absolutas, em todas as demais línguas esses nomes são relativos – dó significa tônica, ré subtônica, mi mediante, fá subdominante, sol dominante, lá relativa e si sensível. O que representa frequências absolutas são letras – A1 representa 55Hz, B1 62Hz, C2 66Hz, D2 74Hz, E2 82Hz, F2 87Hz, G2 96Hz, A2 110Hz, B2 124Hz, etc., aproximadamente.

Por este motivo, decidi reescrever o artigo usando o dó (que, fora do português, significa tônica) como referência.

Prólogo

Escalas exóticas são aquelas que em nenhuma modulação formam correspondência com a escala diatônica.

É impossível abordar completamente todas as escalas exóticas, pois matematicamente falando são 2.041 escalas (350 eliminando as permutações). Vou me ater a fazer um apanhado de algumas poucas mais importantes, que todo músico deveria dominar.

Modos gregos

Antes de começarmos, vou apenas elencar aqui os modos gregos:

Modo
Lídiomisolsi
Jônicomisolsi
Mixolídiomisolsi
Dóricomisolsi
Eólicomisolsi
Frígiomisolsi
Lócriomisolsi

Repare que o grau alterado de um modo para outro é sempre o quarto grau do alterado no modo anterior.

Escala superlócria

Eram apenas seis modos gregos clássicos. Observando-se os acidentes na escala de fá vemos que começamos com nenhum acidente no modo lídio, um acidente no no modo jônico, e assim até cinco acidentes no modo frígio.

Acadêmicos acrescentaram um acidente sobre o modo frígio, seguindo a ordem de quartas, e assim criaram o modo lócrio, que é o último modo possível da escala diatônica – sete graus, sete modos.

Porém nada nos impede de continuar acrescentando acidentes, apenas a escala resultante deixa de ser intermutável com a escala diatônica.

Acrescentando-se um oitavo acidente ao quarto grau, temos a escala superlócria:

ⅠJⅡmⅢmⅣ-Ⅴ-ⅥmⅦm
misolsi

A escala superlócria também pode ser entendida como o modo jônico com a tônica aumentada:

Ⅰ+ⅡMⅢMⅣJⅤJⅥMⅦM
misolsi

Escala clássica menor

Esta é uma escala mista, combinando-se o primeiro tetracorde do modo eólico com o segundo tetracorde do modo jônico:

Modo eólicoⅠJⅡMⅢmⅣJⅤJⅥmⅦm
misolsi
Modo jônicoⅠJⅡMⅢMⅣJⅤJⅥMⅦM
misolsi
Escala menorⅠJⅡMⅢmⅣJⅤJⅥMⅦM
misolsi

Esta escala é muito usada na música erudita.

Escala de blues

De origem mista afro-americana, o blues traz elementos tanto europeus, quanto africanos.

Como música africana, o blues é modal.

Escala modal é aquela onde a relação modal entre os graus é mais importante que suas funções tonais.

Tradicionalmente escalas modais oferecerem dificuldade em determinar se seu modo é maior ou menor. Esse efeito é obtido mascarando a mediante – omitindo-a ou duplicando-a, usando as terças menor e maior na mesma escala.

Observação: alguns estudiosos dizem ser possível determinar o modo pelo sexto grau quando a mediante é omitida.

O blues usa duas mediantes, maior e menor, com a restrição de que a evolução entre elas deve ser sempre ascendente – da menor para a maior, mesmo em evoluções descendentes.

Outra característica não-europeia do blues é a presença do trítono, grau intermediário entre a subdominante (quarta) e a dominante (quinta), abolido pela Igreja Católica por ser considerado Diabŏlus in Musĭca.

O sétimo grau da escala do blues é menor (da dominante), porém é aceita a sensível na chamada da tônica para descanso.

Por último, a segunda não faz parte da escala, mas também é aceita na chamada da tônica para descanso.

Essas restrições quanto ao uso das terças, segunda e sexta se dão devido às relações modais entre os graus da escala, caracterizando mais uma vez esta escala como modal.

A escala fica assim na ascendente:

ⅠJⅢmⅢMⅣJTⅤJⅦm(ⅦM)ⅧJ
mimisolsi(si)

E na descendente:

ⅧJⅦmⅤJTⅣJⅢmⅢM(ⅡM)ⅠJ
sisolmimi(ré)

Além dos graus principais da escala de blues, blueseiros costumam usar de modo ligeiramente criterioso praticamente todos os acidentes de intervalos, transformado o uso real da escala de blues num verdadeiro representante da escola dodecafônica.

Escala nordestina

A escala nordestina, também chamada de lídia ♭7, assim como a menor, é também uma escala mista: consiste no primeiro tetracorde do modo lídio sob o segundo tetracorde do modo dórico.

Modo lídioⅠJⅡMⅢmⅣ+ⅤJⅥMⅦM
misolsi
Modo dóricoⅠJⅡMⅢmⅣJⅤJⅥMⅦm
misolsi
Escala nordestinaⅠJⅡMⅢMⅣ+ⅤJⅥMⅦm
misolsi

Repare que a escala nordestina é intermutável com a escala menor: equivale à escala menor modulada pelo quarto grau.

Escala harmônica

Consiste no modo eólico com a sétima sensível:

ⅠJⅡMⅢmⅣJⅤJⅥmⅦM
misolsi

A passagem mais característica nesta escala é o intervalo de tom e meio entre o sexto e o sétimo graus. Todo o restante é bem trivial.

Há uma outra escala comumente chamada harmônica maior, que consiste no modo jônico com a segunda menor:

ⅠJⅡmⅢMⅣJⅤJⅥMⅦM
misolsi

Também cria o itervalo característico de tom e meio, desta vez entre o segundo e o terceiro graus.

Os nomes técnicos são eólica 7+ e jônica ♭9.

Escala cigana

Escalas ciganas ou húngaras são variantes da escala harmônica (menor). Há dois variantes:

A primeira é igual à escala harmônica, subindo a quarta para o trítono:

ⅠJⅡMⅢmⅣ+ⅤJⅥmⅦM
misolsi

A segunda é a igual à harmônica, com a segunda menor:

ⅠJⅡmⅢmⅣJⅤJⅥmⅦM
misolsi

Os nomes técnicos são lídia ♭3♭13 e frígia 7+.

Escalas bebop

Escalas bebop são variações das escalas com sétima da dominante, onde é acrescentada a sétima sensível, o que forma uma escala de oito graus.

São tradicionalmente executadas descendentemente, assim a primeira nota de cada par representa um elemento do acorde principal do tom.

A mais simples de todas é a mixolídia bebop:

ⅧJⅦMⅦmⅥMⅤJⅣJⅢMⅡMⅠJ
sisisolmi

Tecnicamente há uma escala bebop para cada um dos modos com sétima da dominante – mixolídia, dórica, eólica, frígia e lócria, além de outras exóticas ♭7 –, mas as duas mais usadas no jazz são a lócria bebop:

ⅧJⅦMⅦmⅥmⅤ-ⅣJⅢmⅡmⅠJ
sisisolmi

E a bastante alterada mixolídia bebop ♭9♭13:

ⅧJⅦMⅦmⅥmⅤJⅣJⅢMⅡmⅠJ
sisisolmi

Escala diminuta

Já que falamos em jazz, uma escala interessantíssima usada eventualmente é a escala diminuta, que consiste em duas sequências de terças sobrepostas, separadas por meio tom.

Isso gera uma escala simétrica, onde qualquer grau pode ser usado para descanso – sendo bem honesto, nenhum funciona bem, ou seja, não há gravidade. O nome dessa qualidade é atonalidade.

A sequência de intervalos é semitom, tom, semitom, tom, semitom, tom, semitom e tom.

ⅠJⅡmⅢmⅢMⅣ+ⅤJⅥMⅦm
mimisolsi

Escala aumentada

Outra escala atonal, a escala aumentada é a principal dentre as escalas hexatônicas e consiste em uma série absemitonal simétrica, ou seja, de tons cheios:

ⅠJⅡMⅢMⅣ+Ⅴ+Ⅵ+
misol

Esta foi apenas uma pequena exposição das escalas exóticas que pessoalmente considero importante que todo músico conheça bem.

Pretendo falar especificamente de uma ou outra futuramente.

Addendum

Relação entre intervalos, escalas e trastes em instrumentos temperados de corda; n pode ser corda solta ou um traste qualquer onde esteja o tom desejado:

EscalaⅠJⅡmⅡMⅢmⅢMⅣJTⅤJⅥmⅥMⅦmⅦMⅧJ
Modo lídio
Modo jônico
Modo mixolídio
Modo dórico
Modo eólico
Modo frígio
Modo lócrio
Superlócria
Clássica
Blues
Nordestina
Harmônica (menor)
Harmônica maior
Cigana1
Cigana2
Lócria bebop
Mixolídia bebop ♭9♭13
Diminuta
Aumentada
Mixolídia ♭13
Trastenn+1n+2n+3n+4n+5n+6n+7n+8n+9n+10n+11n+12